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Contábil

Por Beorange
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O primeiro trimestre encerrou em 31 de março. Balanços foram feitos, DARFs foram pagos, obrigacões acessórias foram entregues. Mas uma pergunta poucos fazem nesse momento: a empresa pagou o imposto certo?
Não exatamente em conformidade com a lei (isso é o mínimo esperado), mas pagou a quantidade correta, sem excesso nem falta. Sem antecipar tributos que não eram devidos ainda, sem deixar créditos na mesa, sem usar a base de cálculo errada.
O 2º trimestre começa com uma janela útil: ainda é possível corrigir erros do Q1 antes que eles se multipliquem nos próximos nove meses. Para isso, há cinco indicadores tributários que toda empresa no Lucro Real, no Lucro Presumido ou no Simples Nacional deveria verificar agora.
Por que rever o Q1 antes de fechar o Q2
A maioria dos problemas tributários identificados na auditoria de fim de ano têm origem no primeiro semestre. Um erro na apuração de janeiro, por exemplo, se repete em fevereiro, março e vai se acumulando. Quanto mais cedo for identificado, menor o impacto no caixa e menor a dificuldade de correção.
Além disso, o prazo decadencial de 5 anos para recuperação de créditos tributários segue correndo. Uma revisão feita em abril de 2026 ainda alcança pagamentos feitos desde abril de 2021.
Indicador 1: carga tributária efetiva x alíquota nominal
O que é: a diferença entre a alíquota que a empresa acha que paga e a que efetivamente pagou no trimestre.
Como calcular:
Divida o total de tributos pagos no Q1 (IRPJ + CSLL + PIS + COFINS + ISS, se aplicável) pela receita bruta do período.
Exemplo:
Receita bruta Q1: R$ 600.000
Total de tributos recolhidos: R$ 90.000
Carga efetiva: 90.000 / 600.000 = 15%
Se a empresa acredita estar pagando 12%, o indicador mostra um desvio de 3 pontos percentuais que precisa ser investigado.
O que investigar quando há desvio:
Houve recolhimento duplicado em algum mês?
Foram usados percentuais de presunção errados (Lucro Presumido)?
O regime tributário ainda é o mais vantajoso para o faturamento atual?
Benchmark orientativo por regime:
Regime | Atividade | Carga efetiva típica |
|---|---|---|
Simples Nacional | Serviços (Anexo III, Fator R acima de 28%) | 6% a 14% |
Simples Nacional | Serviços (Anexo V, Fator R abaixo de 28%) | 15,5% a 22% |
Lucro Presumido | Serviços gerais | 13% a 17% |
Lucro Real | Tech/SaaS com margens altas | 20% a 34% (sobre o lucro, não a receita) |
Se o número calculado estiver muito acima do benchmark do setor, é sinal de que algo pode estar errado na apuração.
Indicador 2: estimativas de IRPJ e CSLL x lucro real apurado (Lucro Real Anual)
O que é: para empresas que optaram pelo Lucro Real Anual, o IRPJ e a CSLL são pagos mensalmente por estimativa. No fechamento do ano, o ajuste define se houve pagamento a maior ou a menor.
Como calcular no Q1:
Some as estimativas pagas em janeiro, fevereiro e março. Depois calcule o IRPJ e a CSLL que seriam devidos se o Q1 fosse fechado com o lucro real apurado até 31 de março.
Se estimativas pagas > imposto devido no período: saldo credor acumulando. A empresa pode levantar balanço de suspensão/redução nos próximos meses para reduzir os pagamentos futuros.
Se estimativas pagas < imposto devido: existe passivo não reconhecido. Precisa ser ajustado antes do fechamento.
Por que isso importa:
Em um trimestre com lucro menor do que o esperado (por sazonalidade, por exemplo), a empresa pode estar pagando estimativas com base em uma receita que não se concretizou. O mecanismo de balanço de suspensão existe exatamente para essa situação.
Indicador 3: aproveitamento de créditos de PIS e COFINS (Lucro Real)
O que é: no regime não cumulativo (Lucro Real), a empresa tem direito a crédito de PIS e COFINS sobre insumos, serviços contratados, alugueis, depreciação e outros gastos elegivéis. Se esses créditos não forem registrados na EFD-Contribuições, a empresa paga 9,25% sobre a receita sem abater nada.
Como verificar:
Puxe o total de PIS e COFINS recolhido no Q1. Calcule 9,25% sobre a receita bruta do mesmo período. Se o valor recolhido for próximo de 9,25% da receita, o aproveitamento de créditos pode estar baixo.
Exemplo:
Receita bruta Q1: R$ 500.000
PIS/COFINS calculado bruto: R$ 46.250
Créditos aproveitados: R$ 8.000
PIS/COFINS líquido recolhido: R$ 38.250
Taxa líquida efetiva: 7,65%
Se a taxa efetiva ficou próxima de 9,25%, significa que poucos créditos foram utilizados. Dependendo do perfil de despesas da empresa, esse número deveria ser substancialmente menor.
Despesas mais comuns que geram crédito e costumam ser ignoradas:
Serviços de terceiros com nota fiscal (assessoria, TI, marketing)
Aluguel de escritório e equipamentos
Licenças de software utilizadas como insumo (cloud, ERP, ferramentas de desenvolvimento)
Depreciação de bens do ativo imobilizado usados na atividade
Indicador 4: Fator R (Simples Nacional)
O que é: para empresas de serviços no Simples Nacional, o Fator R define se a empresa tributa pelo Anexo III (alíquota a partir de 6%) ou pelo Anexo V (alíquota a partir de 15,5%). A diferença de quase 10 pontos percentuais é calculada mês a mês.
Cálculo do Fator R:
Fator R = Folha de pagamento dos últimos 12 meses / Receita bruta dos últimos 12 meses
Fator R maior ou igual a 28%: Anexo III
Fator R menor que 28%: Anexo V
Como verificar no Q1:
Some a folha de pagamento (salários + pró-labore dos sócios + 13º + férias + FGTS + INSS patronal) dos últimos 12 meses e divida pela receita bruta do mesmo período.
Se o resultado ficar entre 25% e 31%, vale analisar mês a mês se houve meses pagos pelo Anexo V quando o Fator R já era igual ou superior a 28%.
Impacto financeiro por faturamento mensal:
Faturamento mensal | Anexo V (15,5%) | Anexo III (6%) | Diferença mensal |
|---|---|---|---|
R$ 30.000 | R$ 4.650 | R$ 1.800 | R$ 2.850 |
R$ 60.000 | R$ 9.300 | R$ 3.600 | R$ 5.700 |
R$ 100.000 | R$ 15.500 | R$ 6.000 | R$ 9.500 |
Em três meses pagando o Anexo V quando deveria estar no III, uma empresa com R$ 60 mil/mês acumula R$ 17.100 pagos a mais. Esse valor pode ser recuperado via retificação do PGDAS-D e PER/DCOMP.
Indicador 5: proporção entre lucro tributável e lucro contábil (Lucro Real)
O que é: no Lucro Real, o LALUR (para IRPJ) e o LACS (para CSLL) registram as adições e exclusões que transformam o lucro contábil no lucro tributável. Se o lucro tributável estiver muito acima do contábil sem justificativa clara, algo pode estar sendo adicionado indevidamente.
Como calcular:
Lucro contábil do Q1: R$ 150.000
Adições no LALUR: R$ 35.000
Exclusões no LALUR: R$ 5.000
Lucro Real (base do IRPJ): R$ 180.000
Diferença: 20% acima do lucro contábil
Uma diferença de até 15% costuma ser normal (multas, despesas não dedutíveis, provições). Diferenças acima disso merecem investigação.
O que investigar:
Há despesas sendo adicionadas que poderiam ser classificadas como dedutíveis?
Prejuízos fiscais ou bases negativas de CSLL de períodos anteriores foram compensados até o limite de 30%?
Provisões adicionadas com exceção ao regime de competência?
O que fazer com os resultados
Após verificar os cinco indicadores, há três caminhos possíveis:
1. Tudo dentro do esperado
Documentação en ordem, regime adequado, créditos aproveitados, estimativas alinhadas ao lucro real. Use os dados do Q1 como base de referência para os próximos trimestres.
2. Desvio identificado, correção simples
Erro de cálculo no Fator R, crédito de PIS/COFINS não lançado, estimativa acima do necessário. Retifique o período, levante balanço de suspensão ou transmita PER/DCOMP conforme o caso.
3. Desvio significativo, revisaão estrutural
Regime tributário desatualizado, adições indevidas no LALUR, créditos acumulados de anos anteriores. Nesse caso, o Q2 é o momento certo para uma revisão fiscal mais ampla, antes que os valores se acumulem no restante do ano.
Não sabe por onde começar na revisão do Q1? A Beorange faz essa verificação para empresas de tecnologia no Lucro Real e no Simples Nacional, identificando pontos de correção e oportunidades de recuperação antes que o prazo de cada período feche. Fale com a Beorange.
Conclusão
Cinco indicadores, uma revisão estruturada, dados do próprio sistema contábil da empresa. Não é uma auditoria completa, mas é o suficiente para identificar se algo saiu do trilho no primeiro trimestre e ainda há tempo para corrigir.
O momento ideal para essa revisão é abril, com os números do Q1 frescos e o Q2 recém iniciado. Deixar para o segundo semestre reduz as opções de correção e aumenta o risco de fechar o ano com passivos não reconhecidos ou créditos que não foram utilizados.
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