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Como estruturar a empresa para captar investimento sem perder o Simples Nacional

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Por Beorange

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Uma das situações mais comuns no ecossistema de startups brasileiras é a seguinte: a empresa está no Simples Nacional, começa a conversar com investidores e, lá pelo final da negociação, descobre que aceitar aquele dinheiro pode obrigar uma migração de regime tributário que ninguém havia planejado.

O problema geralmente não é o investimento em si. É o instrumento usado para formalizá-lo.

A legislação do Simples Nacional tem uma regra clara: empresa com sócio PJ não pode optar pelo regime. Mas há instrumentos que permitem estruturar a entrada de capital sem constituir esse vínculo societário antes da hora certa. E há situações em que a migração é inevitável, e o custo precisa estar no plano.

Este artigo explica as regras, as exceções e como planejar a estrutura da captação antes de assinar qualquer documento.

A regra que veda o Simples para empresas com sócio PJ

O art. 3º, § 4º da Lei Complementar 123/2006 é objetivo: não pode ser optante do Simples Nacional a empresa cujo capital social seja composto por pessoa jurídica.

Isso significa que, no momento em que um fundo de investimento, uma empresa ou qualquer outra PJ entrar formalmente como sócia no quadro societário, a empresa perde o direito ao Simples para o próximo ano-calendário. A exclusão não é imediata, mas é certa.

Há uma exceção importante: MEI (Microempreendedor Individual) pode ser sócio de empresa optante do Simples, desde que a participação não inviabilize o próprio MEI. Mas fora desse caso, a regra é de exclusão.

Instrumentos que permitem captar sem entrar no quadro societário ainda

A chave para captar investimento sem perder o Simples está no uso de instrumentos que diferem a constituição do vínculo societário para um momento futuro, geralmente vinculado a um evento de liquidação ou novo round.

SAFE (Simple Agreement for Future Equity)

O SAFE é um instrumento de investimento no qual o investidor aporta capital hoje em troca do direito de receber equity em condições pré-definidas no futuro, geralmente quando a empresa faz um próximo round, uma liquidação ou um evento específico.

Enquanto o SAFE não é convertido, o investidor não é sócio. Não há alteração no contrato social, e a empresa permanece no Simples Nacional.

O SAFE foi regulamentado no Brasil pela Lei 14.195/2021 (Marco Legal das Startups), o que dá segurança jurídica ao instrumento. Para ser válido, precisa estar registrado conforme as exigências da lei.

Mútuo conversível

O mútuo conversível é um contrato de empréstimo que prevê a possibilidade de conversão do valor em participação acionária. Na prática, o investidor empresta dinheiro à empresa, e esse empréstimo pode se tornar equity mediante o cumprimento de determinadas condições.

Enquanto não convertido, o investidor é credor, não sócio. O Simples é preservado.

O ponto de atenção aqui é fiscal: o mútuo tem implicações de IOF (sobre empréstimos entre PJ) e pode gerar receita de juros para o credor, que precisa ser declarada. A estrutura precisa ser montada com cuidado para não criar passivos fiscais paralelos.

Instrumento

Cria vínculo societário imediato?

Preserva o Simples?

Ponto de atenção

SAFE

Não

Sim, até a conversão

Precisa respeitar o Marco Legal das Startups

Mútuo conversível

Não

Sim, até a conversão

IOF e tributação de juros

Entrada direta como sócio PJ

Sim

Não (exclusão no próximo ano)

Mudança de regime obrigatória

Investimento por PF

Não impede

Sim

Regras de limite de faturamento e CNAE se aplicam

Quando a migração é inevitável e o que ela custa

Nem todo round permite usar SAFE ou mútuo. Fundos institucionais, investidores estratégicos e rodadas Series A em diante costumam exigir a entrada formal no quadro societário. Quando isso acontece, a migração de regime é certa.

O impacto depende do perfil da empresa:

Cenário

Simples Nacional

Lucro Presumido

Receita anual

R$ 2.000.000

R$ 2.000.000

Alíquota efetiva (serviços, Anexo III)

~14%

~13,3%

Receita anual

R$ 4.000.000

R$ 4.000.000

Alíquota efetiva (serviços)

~19%

~13,3%

Para empresas de tecnologia prestadoras de serviço com receita acima de R$ 3 milhões, o Lucro Presumido já pode ser mais eficiente. Em alguns casos, a migração forjada pelo investimento é também uma oportunidade de otimizar a tributação.

O que precisa estar no plano antes da negociação:

Simular o impacto tributário do novo regime com a projeção de receita para os próximos 12 meses. Não aceitar o dinheiro sem esse número calculado.

Definir o timing da conversão. A exclusão do Simples acontece no início do próximo ano. Estruturar a entrada do sócio PJ para o fim do ano pode dar mais tempo de preparo.

Revisar contratos, obrigações acessórias e folha de pagamento antes da migração. O Lucro Presumido tem um conjunto de obrigações diferente do Simples, e a transição bagunça a contabilidade se não for planejada.

Como planejar antes de aceitar o dinheiro

O maior erro nesse processo é discutir a estrutura jurídica e fiscal depois que o termo de investimento já foi assinado. O instrumento define a consequência tributária. Mudar depois é caro e, em alguns casos, impossível sem desfazer a operação.

Alguns pontos que precisam estar definidos antes das negociações avançarem:

Qual é o perfil do investidor? PF ou PJ? Anjo, fundo ou estratégico? A natureza do investidor já define quais instrumentos são viáveis.

A empresa pretende manter o Simples por quanto tempo? Se o plano é crescer rapidamente e já está perto do limite de R$ 4,8 milhões, a preservação do Simples pode não valer o esforço estrutural.

O investidor aceita SAFE ou mútuo conversível? Investidores-anjo e fundos early stage costumam trabalhar com esses instrumentos. Investidores estratégicos geralmente não.

Há outros sócios envolvidos? A negociação do cap table precisa considerar diluição, preferência de liquidação e os reflexos fiscais para todos os sócios atuais.

Vai captar investimento e quer garantir que a estrutura está correta antes de assinar? A Beorange avalia o impacto fiscal e societário da captação para empresas de tecnologia e ajuda a montar a estrutura certa para cada momento. Fale com a Beorange.

Conclusão

Captar investimento sem perder o Simples Nacional é possível, mas exige que o instrumento seja escolhido antes do dinheiro entrar. SAFE e mútuo conversível diferem o vínculo societário e preservam o regime. Quando a entrada direta de PJ for inevitável, o planejamento precisa incluir a simulação do novo regime e o timing da migração.

A estrutura do investimento define a tributacao da empresa pelos próximos anos. Vale tratar isso com a mesma seriedade da valuation.

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